AFOGADOS DA INGAZEIRA - MEMÓRIAS Guest Book

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Consciência negra e a injustiça social

O Artigo 179 da nossa primeira Constituição, assinada por D. Pedro I em 1824, dizia no item 9 que “A lei será igual para todos...”. Cento e sessenta e quatro anos depois, em nossa oitava e atual Carta Magna, ficou ratificado em seu “Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza...”
O “Regime do Anistiado Político”, estabelece dentre outras vantagens, indenizações a presos políticos por danos sofridos durante, principalmente, o período conhecido como “ditadura militar”, compreendido entre os anos de 1964 à 1985, onde o Brasil foi governado por oficiais do exército.
Lembramos que ninguém foi mais privado de sua liberdade, aqui no Brasil, do que os negros. Sofreram as mais terríveis torturas e humilhações. Ora, se “Todos são iguais perante a lei”, cabe, inquestionavelmente, aos descendentes dos que tombaram sem vidas nas senzalas e campos de trabalho forçado, igual tratamento, inclusive com todos os direitos e vantagens que manda e determina a lei 10.559 de 2002.
Esse povo, os negros, passou mais de cem anos na escravidão, e mesmo após a dita “abolição da escravatura”, foram jogados à rua sem nenhuma indenização nem perspectiva de integração social.
O mais importante membro da resistência negra em tempos do Brasil Colônia, Zumbi, aos 40 anos, foi traído por um companheiro e morto numa covarde emboscada em 20 de novembro de 1695. Em reconhecimento a luta do líder do Quilombo dos Palmares, nesse dia comemora-se o Dia da Consciência Negra, não apenas pela comunidade afro, mas por todos os brasileiros e brasileiras que exigem e lutam pelo respeito, pela igualdade e, sobretudo pelo cumprimento das Leis. O valente guerreiro, Zumbi dos Palmares, dizia sempre aos seus irmãos quilombolas, índios e brancos que “É chegada a hora de tirar nossa nação das trevas da injustiça social.”
Orgulhosamente,
CARLOS MOURA GOMES

Carlos Moura Gomes <carlosmouragomes@yahoo.com.br>
Gravatá, PE Brasil - 18-Novembro-2017 / 10:19:02

EDIVAL FREITAS DA SILVA
13.09.1937 - 13.11.2017

Missa de 7º dia em 21.11.2017 (terça-feira), na matriz de Casa Forte, no Recife.
O falecido era filho do sr. Fernando Simão (em memória).

Fernando Pires <fernandopires1@hotmail.com>
Recife, PE Brasil - 16-Novembro-2017 / 20:53:37

Arroche o nó!

Oi Fernando, essa serie de fotos do nosso sertão no "Arroche o nó" (que você me enviou por e-mail) é muito pro meu deleite. São diferente fotografias apresentadas de maneira emocionante, os cenários que deixamos muitos anos atrás...
A primeira foto ressalta a cerca e porteira de varas secas, que era o normal naquela época, sendo parte do cenário de desolação do nosso sertão. É uma lembrança doce-amarga que não sabemos se devemos rir ou chorar. A outra é um contraste muito grade, mostrando a natureza verdejante numa época de chuvas e uma casa no meio de tudo isto. Nada pode representar a realidade melhor do que a maneira como é apresentada. Fui parte desses cenários muitas vezes; hoje resta-nos apenas a saudade...
Outra coisa que é muito do meu agrado é ouvir e a maneira bela sem igual que o poeta repentista descreve esses cenários e fatos, nos relembrando as ocorrências com tanta beleza e amor. O poeta repentista é acima do normal, é fantástico e nos deixa abismados pelo fato que ele faz o que gostaríamos de fazer: uma descrição envolvente dos fatos do sertão.
Outra foto muito do meu agrado, por sua significação, é ver a mulher sertaneja carregando a lata d'água na cabeça. Cenário conhecido pelo Brasil afora 'Lata d'água na cabeça, lá vai Maria, lá vai Maria...'. Cantei muito esses versos de carnaval. Muito antes do carnaval isto era o cenário mais comum no nordeste.
As mangas deliciosa e os cajus suculentos nos dizia que a seca havia passado e a abundância havia retornado. O por do sol era uma pausa nos labores diários , um adeus á luz do dia e um alô ao candeeiro a querosene, e bater papo até o sono chegar.
Uma das melhores lembranças daquele período foi a semana que passei em Saco dos Queiroz, residência do Sr. Manoel Ferreira, amigo do meu pai, que me permitiu passar uma semana naquele rincão belíssimo. Um dos vizinhos, que era cunhado do Sr. Manoel Ferreira, era um senhor cujo nome não estou certo, no entanto direi que se chamava Tibúrcio. Ele era um contador de 'histórias'. Eram contos que sempre apresentavam temas de moral, sabedoria, ou humor. E às vezes todos os temas. Aquela visita foi a que mais me agradou e ficou bem gravada na minha mente, agradecendo sempre a Deus pela graça de haver conhecido aquela família tão amiga e boa, a Família do Sr. Manoel Ferreira.
Até a próxima...

Zezé Moura <jojephd@yahoo.com>
Rosemead - Califórnia, CA EUA - 15-Novembro-2017 / 18:46:38

Esse país é nosso!

Acredito que essa nossa geração sexagenária nunca presenciou tantas irregularidades praticadas por governos corruptos e irresponsáveis. Sabemos sim, que a corrupção é antiga e tem uma incrível capacidade de contaminação, igual ou mesmo superior ao mais resistente vírus, causando males, muitas vezes, irreparáveis. É traiçoeira e perigosa. Daí a importância de estarmos sempre vigilantes, usando todas as forças e meios disponíveis para combatê-la e, se possível, destruí-la definitivamente, dando espaço para a justiça e a verdade.
A República do Chade, situada ao norte da África, com aproximadamente 11 milhões de habitantes, a maioria de origem muçulmana, é o país mais corrupto do mundo, segundo levantamento do Fórum Econômico Mundial.
E o Brasil? Bom, o nosso Brasil fica bem próximo. Recebe a “medalha de barro”, ocupando o quarto lugar no pódio da vergonha. Atrás apenas da Bolívia, Venezuela e do próprio “campeão”. Campeão de fraudes e desvios de verbas públicas. Infelizmente, estamos falando de corrupção, a pior doença na esfera política.
Dados oficiais da Receita Federal mostram que nos últimos três anos as solicitações de saídas definitivas do Brasil, incluindo profissionais das mais variadas áreas, tiveram um aumento na ordem de 81%, referente ao período anterior da operação “Lava Jato”.
É mister, ou seja, necessário, que mulheres e homens dessa antiga terra de Vera Cruz, “ponham em prática o poder da democracia para combater as nulidades, sobrepor-se à desonra, revoltar-se diante das injustiças e arrancar o poder das mãos dos maus”. Assim, respeitando, porém discordando dos célebres escritos do Águia de Haia, quando afirma que “o homem chega a ter vergonha de ser honesto”, entendemos que se nas próximas eleições escolhermos representantes dignos de nos representar, os futuros eleitos irão sentir e praticar o valor da virtude, o respeito à honra e o orgulho da honestidade.
Esse país é nosso!

Carlos Moura Gomes <carlosmouragomes@yahoo.com.br>
Gravatá, PE Brasil - 14-Novembro-2017 / 18:35:26

Inclusão, atitude dos fortes!

Nenhum país é feito apenas de uma única língua. No Brasil, por exemplo, estima-se que haja, aproximadamente, 210 formas de se comunicar. A Libras, a Língua de Sinais, é uma delas e é praticada, principalmente, por deficientes auditivos. Dom Pedro II fundou, em 1857, a Imperial Instituto de Surdos Mudos, essa seria a primeira escola do gênero; atualmente funciona como Instituto Nacional de Educação de Surdos, na cidade do Rio de Janeiro.
Lembramos que a perda parcial ou mesmo total da audição, não caracteriza o fracasso do ser humano. A bela Hale Berry, vencedora do Oscar; o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton; o gênio da música clássica, Ludwig van Beethoven; o vocalista, sim, o cantor da banda irlandesa U2, Bono Vox e a atriz brasileira, Maria Otávia Cordazzo, da novela “Tempo de Amar”, são famosos e conseguiram vencer em suas determinadas carreiras, mesmo com seus comprovados problemas auditivos. A redação do Enem 2017 foi sobre os “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”. Coincidentemente, dentre os 77 ferinhas que obtiveram a nota máxima, um é Bernardo Manfredi, surdo de apenas 20 anos, provando que nenhuma deficiência é obstáculo para impedir que os sonhos se tornem realidade.
Enquanto parabenizo a equipe do Enem pela feliz escolha do tema, faço meus os questionamentos do professor Jackson da Mata, indagando em alto e bom som: “até quando os métodos programáticos que promovem a exclusão dos menos favorecidos intelectualmente, serão ferramentas básicas persistentes na educação? Em muitos casos, negativos, os ensinos nas escolas têm gerado não a educação inclusiva, mas a competição, a discriminação exclusiva”. A todos os que enfrentam dificuldades com referencia a qualquer dos cinco sentidos, fica minha solidariedade e meu compromisso como cristão de fazer parte desse valente exército, até porque “desistir é opção dos fracos, insistir é atitude dos fortes”.

Carlos Moura Gomes <carlosmouragomes@yahoo.com.br>
Gravatá, PE Brasil - 7-Novembro-2017 / 16:10:25
Reencontro

Oi Fernando, fiquei bastante surpreso ao ler as notícias sobre o velho rincão, Afogados da Ingazeira, especialmente quando entre vários nomes lá está mencionado o nome da minha querida mãe Aurora de Azevedo Lopes, professora primária estadual, anunciando sua confirmação no cargo. Eu estava com mais ou menos dois anos de idade quando os fatos aconteceram,por esta razão eu não sabia dos detalhes, mesmo assim fiquei muito alegre ao tomar conhecimento do noticiário.
Fiquei recordando meu tempo de criança, da escola que era localizada na sala da nossa casa, da alegria natural das crianças contemporâneas e chorei, não de amargura, mas de gratidão e amor do que passou, e das memórias.
Mais abaixo vieram outras notícias que também trouxeram boas recordações: os natalícios de duas pessoas muito importantes para mim: Dr. Fausto Campos e Maria do Carmo Veras. Dr Fausto era um homem de boa índole e o seu filho mais novo era da minha idade e chamava-se Aquiles; éramos amigos.
Quando eu já estava na Escola de Aprendizes Marinheiro tive um encontro com Aquiles na ponte Duarte de Macedo; estávamos indo em direções opostas e eu o reconheci. Falamos brevemente e continuamos com nossa andança. Foi a ultima vez que nos vimos.
Maria do Carmo Veras, era uma moça muito bonita, de uma voz agradável e jovial. Os pais dela eram meus padrinhos de batismo e eu gostava muito deles. Quando veio o período Joanino, meu pai comprou madeira para fazer a fogueira. Na data apropriada, a fogueira estava abrasada, o barulho das roqueiras, “Peido de Véia” e muitos outros fogos de artifício, vieram umas moças a passear e param para observar o fogaréu. Estabelecemos uma conversa amiga sobre o fogo, e de repente me veio a ideia: "voce gostaria de ser minha madrinha de São João?" Trocamos algumas palavras e ela finalmente respondeu afirmativamente; fiquei muito feliz, pois agora eu tinha uma desculpa para conversar com a bela jovem.
A última vez que nos vimos foi num encontro ocasional, na rua Nova, no Recife, que naquela época era o grande centro comercial. Ela estava em companhia de outras moças que quando me viram vieram me cumprimentar e perguntar o eu fazia em Recife. Foi nosso ultimo contato.

Zezé Moura <jojephd@yahoo.com>
Rosemead - Califórnia, CA EUA - 1-Novembro-2017 / 17:13:48

Memórias afetivas de Fátima Brasileiro

Fátima Brasileiro é farmacêutica e atua como Assessora Técnica em Saúde no Consórcio dos Municípios de Pernambuco, que foi criado sob a coordenação da Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe). Ela reside no Recife há 42 anos, mas nunca esqueceu as vivências da infância e adolescência no Sertão. Mais precisamente em Afogados de Ingazeira, município localizado a 386 quilômetros do Recife, no qual realizou os seus primeiros estudos. Mas foi no Sertão, também, que ouvia as histórias de mitos não tão distantes como os cangaceiros, que chegaram a invadir a casa dos seus avós, deixando em desespero toda a família que até hoje faz relato oral dessa história, sobre fato tão comum na caatinga do início do século passado.

Fátima preferiu partir para o registro, não só sobre os lendários bandidos que tomaram de assalto a casa dos avós, em Carnaíba, como também das lembranças que vivenciou em Afogados de Ingazeira, onde fez as primeiras amizades, conheceu o amor, participou das festas de rua, das cerimônias religiosas (como as procissões), dos pastoris. Foi ali, também, que sentiu o flagelo da seca, e alegria de ver o Rio Pajeú com o leito caudaloso, durante uma enchente. Depois que a água baixou, as suas margens viraram uma praia, para os moradores da cidade.

Todas essas vivências fazem parte do livro Memórias Afetivas, que Fátima Brasileiro vai lançar, às 18h do próximo sábado, na Praça Monsenhor Arruda Câmara, em frente à Catedral, onde ocorre a terceira edição da Feira de Empreendedorismo de Afogados de Ingazeira. “Memórias Afetivas” aborda com lirismo e em clima saudosista o Sertão do século passado. O Sertão dos velhos casarões, dos grandes quintais (com fruteiras), das rendas de bilros (feitas pela avó), do gado, das encantadoras viagens de trem da autora, durante a infância. Fátima conta, ainda, as desilusões amorosas da adolescência, o sonho de ser baliza, histórias de costumes e fatos do Sertão.

Um dos mais deliciosos relatos da autora é o capítulo As cheias do Pajeú, tanto em Carnaíba quanto em Afogados de Ingazeira. Nesse município, em 1967, “o rio ultrapassou o leito e invadiu a Avenida Manoel Borba, numa correnteza de assustar”. Ela lembra que as casas ao lado do rio “foram totalmente tomadas pela água, que alcançou o outro lado da rua”. Mas relata a surpresa que veio a seguir. “Passado o susto, uma novidade. A areia trazida pela água formou uma faixa imensa, por um mês ou quase. Afogados, a quase 400 quilômetros do litoral, agora tinha praia”, conta. “A juventude estilosa, de óculos de sol e lenço na cabeça, aproveitava para passear, jogar bola, se divertir. A areia era muito branca, um presente para o Pajeú. Famílias inteiras fazendo piquenique, caminhada, tomando banho”. Ou seja, uma verdadeira praia, em pelo Pajeú. Fátima é gente, é quem.

(Letícia Lins, jornalista)

Fernando Pires <fernandopires1@hotmail.com>
Recife, PE Brasil - 17-Outubro-2017 / 22:33:25


Aquarela do Brasil - A música é uma das expressões mais belas que temos na sociedade humana, e a Aquarela do Brasil é verdadeiramente ímpar. Traz-me as lembranças de outrora com o excitamento de ouvir pela primeira vez a Aquarela do Brasil no piano com Tyrone Powel. Não me recordo do nome do filme, mas a música sim, é inesquecível. Não tínhamos Rádio, e a difusora Pajeú o substituía.
Com todas as facilidades que temos hoje, é difícil fazer as novas gerações acreditarem que houve um momento no tempo em que comunicação era privilégio de alguns, mesmo assim uma lembrança agradável e um deleite.
Na minha percepção, os cubanos contribuíram bastante com seus maracás na formação fabulosa desse musical tão bonito. Mais uma vez tenho que agradecer ao Fernando o envio desses vídeos.

Zezé de Moura <jojephd@yahoo.com>
Rosemead - Califórnia, CA EUA - 17-Outubro-2017 / 6:52:55

Fragmentos de “PÁGINAS DE AFOGADOS DA INGAZEIRA”
sobre as Frentes de Trabalho do DNOCS (Departamento Nacional de Obras Contra a Seca), nos anos 1960 – séc. passado.

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Em 17 de junho de 1962, na edição 136-2, lia-se no Diário de Pernambuco:

“AJUDA OU EXPLORAÇÃO?

Recebemos denúncia, por parte de informante merecedor de fé, e pusemos em campo a reportagem do Canal 6, que foi a Afogados da Ingazeira e constatou, 'in loco', a procedência total do protesto corajoso de um sertanejo de fibra:

A frente de trabalho aberta pelos serviços federais, a fim de minorar a situação da população atingida pela fome e pela crise de produção está se transformando num processo ignóbil de exploração que clama aos céus.
O cinegrafista da Televisão associada apanhou ao vivo as cenas dantescas de que é teatro o município, e, possivelmente, se o sistema é o mesmo, o Nordeste inteiro

Miseráveis párias, chefes de família numerosa, enfrentam trabalho árduo, rasgando leitos de estradas, realizando escavações e movimento de terra, em esforço penoso, numa jornada de 10 e onze horas, de sol a sol, em labuta feroz, de calcetas, tratados como se fossem bichos do mato. São homens saudáveis, velhos, mulheres e crianças, vergados ao peso das picaretas, dos carros de mão, das pás, das enxadas, das seis da manhã às onze, e das treze às dezoito horas, sob a canícula comburente e abrasiva.

Salário, Cr$ 300,00 (trezentos cruzeiros) por semana, e o resto pago em gêneros deteriorados, alimentos apodrecidos que seriam recusados pelo paladar grosseiro dos animais famintos. A distribuição de gêneros seria compreensível, porque o drama da região é exatamente a falta de alimentos e levando ao flagelado a carne de charque, o feijão, o milho, o leite o peixe, o café, o açúcar, na verdade os órgãos federais estariam concorrendo para amenizar a tortura das populações sacrificadas do sertão. Mas, na sacaria dos gêneros que se empilham nos barracões estatais está gravada em termos de não ensejar lugar a dúvidas, a declaração expressa de que se trata de mercadorias fornecidas pelo povo americano, no programa ‘Aliança para o Progresso’ e de que tais utilidades não podem ser vendidas nem trocadas.

Ora, tudo se torna muito claro: o governo federal recebeu substancial ajuda americana em gêneros alimentícios para distribuição entre os necessitados, e os órgãos que executam a política assistencial do governo da União transformam estas utilidades em meio de pagamento, completando o ignóbil salário de fome atribuído ao trabalhador que, desta sorte, é vítima da mais torpe e desumana exploração, tanto mais abjeta e sórdida, quanto exercida pelo poder público.

Trairíamos os mais comezinhos deveres para com a comunidade se silenciássemos diante de tamanho horror e aqui estamos para denunciar ao Estado e à Nação este crime que se perpetra à plena luz contra Deus, contra a sociedade, contra o indivíduo e contra a pessoa humana.

Temos, repetidas vezes, procurado fixar bem nossa posição de jornal de centro, diante dos problemas sociais do país e da região. Pregamos a ordem, o respeito à legalidade, a preservação das nossas tradições de democracia ocidental e cristã, entendendo que é possível realizar uma política da justiça social dentro dos moldes de uma evolução pacífica, sem ser preciso recorrer a processos revolucionários ou a fórmulas bastardas de transplantação de exotismo repelidos pela nossa própria formação. Mas, manter isso que aí está, e de que o episódio de Afogados da Ingazeira constitui um aspecto sugestivo e marcante, sentimos que é impossível.

Para jogar a Nação no horror de uma revolução sangrenta, não é preciso pedir emprestado nenhum modelo a Cuba ou à Alemanha oriental: os processos utilizados pelos próprios órgãos oficiais bastam e sobram. ”

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Nessa mesma edição (136-2) de 17 de junho de 1962, do Diário de Pernambuco, lia-se...

"O comerciante José Correia de Siqueira e o repórter associado, visitando a frente de trabalho do DNOCS-SUDENE, em Afogados da Ingazeira, conversaram com os camponeses e veem sacos de alimentos doados pelo governo dos Estados Unidos

FRENTE DE TRABALHO DO DNOCS, EM AFOGADOS DA INGAZEIRA, É CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DA FOME
(Reportagem de Severino Barbosa)

Verdadeiro campo de concentração, onde as cercas de arame farpado foram substituídas pelas algemas da fome, está instalado em pleno sertão pernambucano, na cidade nordestina de Afogados da Ingazeira, a 400km do Recife. Nele, mais de mil camponeses, flagelados das secas, trabalham entre nove e dez horas por dia, inclusive nos feriados e dias santos, e seu pagamento é feito ¼ em dinheiro (25%) e o restante em mercadorias.
Trabalham homens, mulheres e crianças, na estrada que vai de Afogados da Ingazeira a Carnaíba, numa extensão aproximada de 20km, sob o sol inclemente do sertão.
Sem assistência médica e dependendo apenas do pagamento de Cr$ 1.200,00 (mil e duzentos cruzeiros) semanais, a maior parte em gêneros alimentícios, os agricultores tangidos pela seca têm seu destino entregue ao DNOCS, sob as vistas complacentes da SUDENE.

O mais grave é que a mercadoria que completa o “ordenado” dos trabalhadores é recebida em doação pela SUDENE: milho, feijão, farinha e outros gêneros, mandados pelos Estados Unidos ou doados por instituições particulares brasileiras.

A ESTRADA – Foi iniciada em 1958, numa grande seca e em véspera de campanhas eleitorais, a estrada de Afogados da Ingazeira a Carnaíba, no sertão pernambucano, próximo à divisa da Paraíba, a 400 quilômetros do Recife.
Naquele ano, apesar do pouco trabalho realizado, foram gastos Cr$ 70 milhões (de cruzeiros). Passada a fase “estratégica” da campanha e de candidatos, foi a construção desprezada, inteiramente esquecida, no correr dos últimos anos, para prejuízo do nosso progresso.
Como justificativa ao emprego dos flagelados, a título de assistência aos desabrigados da seca, foi reiniciado o trabalho em meados de maio próximo passado.
Quase dois mil camponeses, de ambos os sexos, e de idades variáveis entre os 10 (DEZ) e os 70 (SETENTA) anos, foram empregados no serviço da estrada.

CAMPO DE CONCENTRAÇÃO – Não pode ser outra a denominação de um campo de trabalho, onde empregados, forçados ao labor exaustivo, de sol a sol, com horas intermináveis ao relento, dependem de uma disciplina férrea e desumana.
Homens, mulheres e crianças; velhos de cabelos brancos, de enxada à mão e picareta, quebram a terra dura, feito pedra do sertão, e são dominados por administradores insensíveis.
Seu pagamento é ‘ o comer que comem ’, e seu castigo, por qualquer desobediência, ou qualquer falta, ‘ é perder direito à feira semanal ’, paga pelo Armazém, a título de ordenado.

São vários os casos de injustiça, e uma das ‘barraqueiras’ foi punida, perdendo a feira da semana, por ter rejeitado as ‘graçolas’ de certo auxiliar de administração.
Um dos trabalhadores, adoecendo e ficando por dois dias no seu mocambo, também não recebeu seus ‘vencimentos’ e foi forçado a passar OITO DIAS sem alimentos.
O chicote, naquele ‘campo de concentração’, foi substituído pelo azorrague (castigo) da fome .

PAGAMENTO EM FEIJÃO - Percebendo Cr$ 1.200,00 (mil e duzentos cruzeiros) semanais, os trabalhadores da estrada recebem apenas Cr$ 300,00 (trezentos cruzeiros) em espécie. O restante é completado com mercadorias, quase sempre deterioradas e prejudicais à saúde.

Nossa reportagem anotou uma dessas feiras semanais, fornecidas aos flagelados:
Carne de Charque, 1,2kg; Peixe, 800g; Feijão, 1,5kg; Farinha, 3kg; Café, 1kg; Açúcar, 2kg.
A minguada feira, segundo pudemos observar, chega apenas para 4 ou 5 dias. Quando a família é grande, a feira dá apenas para 3 (três) dias. O resto da semana eles ficam sem comida.
Com os Cr$ 300,00 em espécie, o camponês tem que comprar fósforo, querosene, sabão para lavar panelas e roupas, remédio, quando adoece, e assim por diante.

O mais grave, repetimos, é que a mercadoria negociada como dinheiro, utilizada para o pagamento, é recebida em DOAÇÃO DO POVO NORTE-AMERICANO e de Instituições da caridade no país e dado à SUDENE, com a legenda ‘NÃO VENDER, NEM TROCAR’.

TESTEMUNHA DE VISTA – Fomos acompanhados, nesta reportagem, pelo sr. José Correia de Siqueira , comerciante estabelecido no Recife e filho de Afogados da Ingazeira, onde reside sua família, e onde nasceram seus antepassados.
Comentando a miséria dos flagelados sertanejos, e a situação que presenciou, disse:
‘O problema das secas somente é insolúvel no Brasil, pois em todo o mundo a mão do homem supre as deficiências naturais. A falta d´água, através de irrigações e das chuvas que se repetem todos os anos no sertão, certamente pode ser solucionada com a construção de açudes, barragens e poços tubulares. Um homem do sertão, conhecedor da gravidade desse problema e sabendo também a maneira de resolvê-lo, mandou estudar os vales do Pajeú, Brígida e Moxotó. Foram planejados aproximadamente 20 açudes que, naturalmente, teriam sido construídos, não fosse a sua morte. E me refiro a Agamenon Magalhães. Se assim acontecesse, ao invés de ser um Vale de Misérias, o sertão de Pernambuco seria hoje um oásis, um celeiro do Nordeste.’

CORRIGIR A INJUSTIÇA - Quanto à injustiça praticada contra os camponeses de Afogados da Ingazeira, disse o sr. José Correia:
’Tem o DNOCS obrigação de remunerar o trabalho daqueles infelizes sertanejos, com dinheiro, ao invés de mercadorias. Não me consta que a prática de utilizar-se gêneros alimentícios, como moeda corrente, em pagamento de serviços prestados, seja permitida em nosso país. Além do mais, o pagamento semanal de Cr$ 1.200,00, num total de Cr$ 4.800,00 ao mês, mesmo sendo em espécie, não seria o justo em relação ao esforço de NOVE a DEZ horas de trabalhos diários a pais de família.
É de estranhar que a SUDENE, órgão criado sob o pretexto de redimir o Nordeste, dê o seu beneplácito para que os nordestinos sejam tratados como escravos, ou prisioneiros de guerra’”



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(“Páginas de Afogados da Ingazeira” é o nosso novo livro, em fase de edição, que conta momentos da cidade/região, desde a sua origem – Ingazeira – a partir dos anos 1800.)

Fernando Pires <fernandopires1@hotmail.com>
Recife, PE Brasil - 15-Outubro-2017 / 22:23:48

Fernando Pires <fernandopires1@hotmail.com>
Recife, PE Brasil - 13-Outubro-2017 / 21:53:42
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